O marketing desportivo é uma disciplina com fronteiras claramente distintas de qualquer outra especialidade do marketing. Quem trabalha no sector sabe-o bem: a forma como um adepto se aproxima de uma equipa, de um piloto, de um campeonato, não tem nada a ver com a forma como esse mesmo indivíduo escolhe um seguro ou um pacote de biscoitos. Mas o que orienta verdadeiramente essa escolha? E como pode um patrocinio activar a alavanca certa?
Para uma marca que avalia um investimento no desporto — num patrocinio MotoGP, na F1 ou em qualquer outro campeonato de topo — compreender o mecanismo de decisão do consumidor desportivo não é um exercício académico. É a diferença entre um espaço na carenagem que não move nada e uma activação que gera procura real.
O que é o Marketing Desportivo?
Partamos de uma definição. Retomando o trabalho de Mullin e Hardy (Sport Marketing, 4a ed., 2014), o marketing desportivo é diferente de qualquer outro tipo de marketing porque para os seres humanos o desporto tem um significado sociológico, cultural e emocional profundamente diferente de qualquer outro produto ou serviço.
Deste axioma nasce um corolário decisivo: o Consumer Behavior no marketing desportivo é inteiramente diferente do classicamente entendido. O consumidor não segue um desporto como segue uma marca de detergente: identifica-se com ele, emociona-se, constrói uma identidade sobre essa base.
O Modelo de Tomada de Decisão no Marketing Desportivo
Para introduzir o processo de decisão do consumidor desportivo, o esquema mais útil é o de Mullin e Hardy: no centro encontra-se a tripla partição entre Socialização, Envolvimento e Compromisso. Este nó central não é um ponto de partida, mas de chegada: o resultado de um processo que leva o indivíduo a aproximar-se progressivamente do desporto.
Este nó central é atingido através de dois tipos de factores: os ambientais e os individuais. A distinção é fundamental para quem trabalha no motorsport: um fã que chegou ao MotoGP através da família ou da televisão é um consumidor profundamente diferente de quem chegou através do gaming ou das redes sociais.
Factores Ambientais na Tomada de Decisão do Consumidor Desportivo
Os factores ambientais são os “heterodirigidos”: o indivíduo está imerso neles, mas absorve-os e reelabora-os através da sua própria história pessoal.
O primeiro é o dos Significant Others — não apenas os parceiros românticos, mas todas as pessoas significativas: o pai que vê as corridas ao domingo, o grupo de amigos que acompanha o campeonato, o colega que usa a camisola do seu equipa favorita. Esta dinâmica tem implicações concretas e mensuráveis: as investigações indicam que apenas 4% das pessoas que assistem a um evento desportivo vão sozinhas. Nos restantes 96%, a experiência desportiva é colectiva.
O segundo factor diz respeito ao Market Behavior das sport firms: o modo como as propriedades desportivas, as equipas e os organizadores comunicam com o mundo. O desporto gera espontaneamente conteúdo editorial em quantidades enormes. Isto traduz-se num volume de comunicação que nenhuma marca pode replicar autonomamente, mas no qual pode participar — e amplificar — através do patrocinio.
O terceiro factor diz respeito às Cultural Norms and Values. O Campeonato do Mundo de futebol de 2010 na África do Sul registou, segundo dados da FIFA, 3,2 mil milhões de espectadores que viram pelo menos um minuto de transmissão. O MotoGP conta com uma base de mais de 200 milhões de fãs entre a Europa, a Ásia e as Américas, distribuídos por mercados com profundas diferenças culturais.
Por fim, não se pode ignorar o papel de Raça, Género, Classe e proveniência geográfica como variáveis estatisticamente relevantes. O motorsport está a viver uma transformação acelerada, com crescimento significativo da componente feminina e dos menores de 35 anos na audiência da Fórmula 1 e do MotoGP.
Factores Individuais na Tomada de Decisão do Consumidor Desportivo
Se os factores ambientais chegam ao consumidor do exterior, os factores individuais nascem de dentro: são a forma como cada um filtra, reelabora e transforma em comportamento tudo o que lhe chega dos significant others, do marketing das propriedades desportivas, da cultura em que cresceu.
O primeiro é a motivação. Quem se aproxima do desporto raramente o faz por um único motivo: há quem procure o sucesso, a necessidade de se identificar com uma vitória (o efeito BIRGing, Basking In Reflected Glory); há quem procure o stress e a estimulação; há quem procure a estética ou simplesmente a interação social.
O segundo factor é a percepção da própria capacidade (perceived skill). Quem já conduziu uma mota vê um GP MotoGP de forma diferente de quem nunca o fez: com um grau diferente de competência técnica percepcionada. Isto explica por que o motorsport atrai um público mais técnico e prescritivo.
O terceiro factor diz respeito ao conceito de si próprio (self-concept): o desporto que escolhemos seguir comunica aos outros — e a nós próprios — quem pensamos ser. Vestir a camisola da equipa favorita não é apenas declarar uma preferência desportiva: é projectar uma identidade.
Por fim, existem os factores situacionais: o tempo livre disponível, o orçamento, a distância ao recinto. Em 2024, com a fragmentação dos canais e a multiplicação dos pontos de contacto, o consumidor desportivo é acessível em todo o lado, mas deve ser alcançado no momento e no formato certos.
Da Tomada de Decisão à Estratégia de Patrocinio
É a intersecção entre factores ambientais e individuais que determina o grau de Socialização, Envolvimento e finalmente Compromisso com um produto desportivo. Para quem avalia um patrocinio, o ponto nunca é “o consumidor ama o desporto”: é compreender qual alavanca, naquele público específico, pode ser realmente activada — e medida.
Um patrocinio no MotoGP não compra apenas espaço na carenagem: compra o acesso a um sistema de significados culturais, sociais e identitários que o consumidor desportivo projecta nesse campeonato.
Perguntas frequentes sobre a tomada de decisão no marketing desportivo
Que factores influenciam a tomada de decisão do consumidor no marketing desportivo?
Segundo o modelo de Mullin e Hardy, o comportamento do consumidor desportivo resulta da intersecção entre factores ambientais — significant others, comunicação das propriedades desportivas, normas culturais, proveniência geográfica — e factores individuais: motivação, perceived skill, conceito de si próprio e factores situacionais.
Por que o comportamento do consumidor desportivo é diferente do consumidor tradicional?
O desporto tem para o ser humano um significado sociológico, cultural e emocional que nenhum outro produto ou serviço possui em igual medida. Escolher que desporto seguir comunica uma identidade — não apenas uma preferência de consumo.
O que são Socialização, Envolvimento e Compromisso no marketing desportivo?
São as três fases do processo de decisão do consumidor desportivo segundo Mullin e Hardy: a socialização, o envolvimento crescente e finalmente o compromisso estável. É nesta terceira fase que o adepto se torna o público mais valioso para um patrocinador.
Como se aplica este modelo a uma estratégia de patrocinio no motorsport?
Compreender sobre que alavanca decisional age o seu público permite construir activações dirigidas em vez de simples exposições de logotipo. Um patrocinio MotoGP ou F1 que fale ao conceito de si do adepto gera muito mais retorno do que um limitado ao posicionamento da marca.
Por que apenas 4% dos adeptos vai sozinho a um evento desportivo?
Porque a experiência desportiva é estruturalmente colectiva. Este dado, citado na investigação de Mullin e Hardy, tem implicações directas para quem vende pacotes de hospitalidade: o produto não é um bilhete, é uma experiência partilhada.