Em 2025, os Grandes Prémios de Fórmula 1 registaram 6,7 milhões de entradas no conjunto dos seus fins de semana de corrida, o recorde de sempre. E, no entanto, como lembram há anos os próprios dirigentes da Fórmula 1, 99% dos adeptos não assistem a nenhum Grande Prémio ao longo da época. Seguem as corridas a partir de um ecrã e, cada vez mais, a partir de dois: a televisão ou o streaming para a corrida, o smartphone para tudo o que acontece à volta dela.
Tende-se a pensar que, para ser visto nos desportos motorizados, basta um logótipo no sítio certo: na decoração do carro, no painel junto à pista, no fato do piloto. Eu leio isto de outra maneira. O logótipo continua a ser necessário, mas sozinho só fala a quem vê a corrida. Para envolver o público dos desportos motorizados que vive a corrida no telemóvel, é preciso algo que o logótipo não consegue fazer: conteúdos pensados para esse público, para esses canais e para esse momento.
O público hiperdigital dos desportos motorizados em números
Os números de 2025 mostram que o público hiperdigital não é um nicho. Segundo o balanço de final de época da Fórmula 1, os seguidores das suas redes sociais chegaram aos 114,5 milhões, mais 19% do que em 2024, com um crescimento mais rápido do que no ano anterior sobretudo no TikTok e no YouTube; no final de julho de 2026 já ultrapassavam os 125 milhões. No final de 2025, o campeonato estimava a sua base de adeptos em 827 milhões de pessoas: 43% têm menos de 35 anos e 42% são mulheres.
O MotoGP conta a mesma história. No seu balanço de 2025 declara 632 milhões de adeptos, mais 12% do que no ano anterior, mais de 60 milhões de seguidores nas redes sociais e mais de mil milhões de minutos de vídeo vistos no canal oficial do YouTube. Mais de metade dos seus adeptos e seguidores tem menos de 35 anos, pelo quinto ano consecutivo.
São números declarados pelos próprios campeonatos, e é assim que devem ser lidos. Mas a direção é clara, e é a mesma para ambos: o público cresce sobretudo onde se vê na vertical, se desliza o dedo e se comenta.
A bancada mudou-se para o bolso
Durante décadas, a bancada foi o lugar onde a paixão ganhava forma: via-se, comentava-se com o vizinho, discutia-se a última ultrapassagem. Hoje essa bancada está dentro do telemóvel. Durante uma corrida, o segundo ecrã é o sítio onde se comenta, se revê uma manobra, se procura a rádio do piloto com a equipa e se partilha um meme dez segundos depois da bandeira de xadrez.
Para uma marca, isto muda a pergunta. Já não basta perguntar onde vai aparecer o logótipo. É preciso perguntar em que bancada digital se quer estar, e com quê. Cada canal tem o seu próprio trabalho. O Instagram e o TikTok premeiam os momentos curtos e visuais, o YouTube sustenta a narrativa longa, dos bastidores ao documentário, e os canais em tempo real vivem do comentário a quente. O mesmo vídeo reciclado em todo o lado, na minha experiência, rende pouco em todo o lado.
Quatro tipos de conteúdo que funcionam para uma marca
Com vários clientes, vi funcionar quatro famílias de conteúdos. Não se excluem umas às outras: as melhores operações combinam pelo menos duas.
1. O acesso
O paddock é um lugar fechado, e o público quer entrar. Uma marca que leva o adepto onde a televisão não chega, à box, à oficina, à preparação de um piloto, oferece algo que não se encontra noutro lado. É o conteúdo mais natural para um patrocinador, porque esse acesso o patrocinador já o pagou.
2. O tempo real
Durante o fim de semana de corrida, a atenção é máxima e dura pouco. Comentários, sondagens, atualizações e reações a quente funcionam se chegarem no momento certo, e para chegarem no momento certo têm de ser preparados antes, com um plano editorial e uma equipa pronta a publicar.
3. O público como autor
Passatempos, hashtags próprias, perguntas aos pilotos em direto: o adepto que participa lembra-se da marca mais do que aquele que apenas assiste. Os conteúdos criados pelos fãs custam pouco e alargam a comunidade, com uma condição: que a marca saiba ouvir e partilhar, e não apenas pedir.
4. O entretenimento
Os desportos motorizados atraem também quem não segue as corridas, se a narrativa for a certa. A Fórmula 1 mostrou-o com «Passenger Princess», a série do YouTube em que a apresentadora e youtuber Amelia Dimoldenberg, criadora de «Chicken Shop Date», entra no carro com os pilotos: segundo a Fórmula 1, a primeira temporada ultrapassou os 289 milhões de visualizações, e em julho de 2026 arrancou a segunda. Uma marca pode fazer o mesmo com formatos próprios, desde que sejam entretenimento antes de serem publicidade.
Os dados vêm antes da produção
Cada conteúdo deixa dados: quem o viu, durante quanto tempo, de onde, o que fez a seguir. Usá-los antes de produzir o conteúdo seguinte é a diferença entre um plano editorial e uma sequência de tentativas. Falamos disso com mais detalhe no guia sobre como usar a análise de dados nas estratégias de patrocínio.
O essencial, na minha opinião, é escolher a métrica certa. Os seguidores e as visualizações dizem quanta gente passou à frente. As métricas que contam para um patrocinador são outras: contactos recolhidos, visitas ao site, pedidos comerciais, vendas nas promoções ligadas à corrida. Um conteúdo muito visto e nunca lembrado é um custo.
O streaming muda quem controla o público
Entretanto, também a corrida se mudou. Desde 2026, a Fórmula 1 é transmitida em exclusivo na Apple TV nos Estados Unidos, ao abrigo de um acordo de cinco anos anunciado em outubro de 2025, e o serviço F1 TV Premium está incluído na subscrição da Apple TV. Segundo as estimativas da imprensa especializada, a Apple paga cerca de 140 milhões de dólares por ano.
Para quem patrocina, a consequência é concreta: uma parte crescente do público vê a corrida dentro de plataformas que conhecem os seus hábitos e preferências, e esses dados ficam com a plataforma. Uma marca que queira uma relação direta com os adeptos tem de a construir nos seus próprios canais, com conteúdos suficientemente bons para os levar até lá.
Onde se tropeça com mais frequência
À mesa das negociações, vejo repetirem-se quatro tropeções. O primeiro é falar do logótipo em vez da corrida: o adepto segue os desportos motorizados, não o patrocinador, e um conteúdo que se esquece da corrida perde o seu público. O segundo é desaparecer entre um fim de semana e o seguinte: uma época de Fórmula 1 ou de MotoGP dura cerca de nove meses, e uma marca que só se faz ouvir ao domingo deixa vazios os outros seis dias. O terceiro é não ler o contrato com atenção: as imagens oficiais das corridas pertencem a quem detém os direitos do campeonato, e aquilo que um patrocinador pode usar, e onde, é definido pelo contrato e pelas licenças concedidas por esse titular. O quarto é medir o sucesso com os números que agradam nas reuniões em vez dos que servem ao negócio.
Como trabalhamos os conteúdos para os patrocinadores
O nosso trabalho parte do público, não do formato. Primeiro percebemos quem segue a propriedade desportiva escolhida, em que canais e em que mercados; depois construímos um plano que cubra toda a época, dentro e fora dos fins de semana de corrida, e ligamo-lo às ativações do patrocinador, para que cada evento produza também conteúdos. No fim, medimos os resultados com os indicadores acordados no início. Vale para o patrocínio na Fórmula 1 tal como para o patrocínio no MotoGP.
O painel junto à pista é visto por quem lá está. O conteúdo certo é visto por quem conta. Também à segunda-feira.
Perguntas frequentes sobre como envolver o público dos desportos motorizados
O que significa público hiperdigital nos desportos motorizados?
É o público que segue as corridas sobretudo através do smartphone e das plataformas digitais, muitas vezes com um segundo ecrã ligado durante a corrida para comentar, rever os momentos decisivos e partilhá-los. Segundo os dados de 2025 dos campeonatos, 43% dos adeptos da Fórmula 1 e mais de metade dos adeptos e seguidores do MotoGP têm menos de 35 anos.
Como se envolve o público dos desportos motorizados nas redes sociais?
Com conteúdos diferentes para cada canal: vídeos curtos no TikTok e no Instagram, narrativas longas e bastidores no YouTube, comentários em tempo real durante a corrida. Funcionam o acesso ao paddock, a participação dos fãs com passatempos e perguntas aos pilotos, e os formatos de entretenimento.
Quantos seguidores têm a Fórmula 1 e o MotoGP nas redes sociais?
No final de julho de 2026, a Fórmula 1 tinha ultrapassado os 125 milhões de seguidores, mais 19% em termos homólogos. O MotoGP, no final de 2025, tinha ultrapassado os 60 milhões, com mais de mil milhões de minutos de vídeo vistos no canal oficial do YouTube.
Que conteúdos funcionam melhor para um patrocinador dos desportos motorizados?
Os que oferecem algo que o adepto não encontra noutro lado: o acesso aos bastidores, a presença nos momentos decisivos da corrida, a participação direta dos fãs e o entretenimento. Um conteúdo que só fala do logótipo, sem a corrida, costuma render pouco.
Como se mede o retorno dos conteúdos digitais de um patrocínio?
Além de seguidores e visualizações, com métricas ligadas ao negócio: contactos recolhidos, visitas ao site, pedidos comerciais e vendas geradas pelas promoções ligadas à corrida. Os indicadores devem ser acordados antes de começar.
Um patrocinador pode usar as imagens das corridas nos seus conteúdos?
Depende dos acordos. As imagens oficiais das corridas pertencem ao titular dos direitos do campeonato, e um patrocinador só as pode usar dentro dos limites, nos canais e durante o tempo previstos pelo contrato e pelas licenças concedidas por esse titular.