A 23 de junho de 2026 a MotoGP nomeou a CAA Sports sua agência exclusiva global para os patrocínios do campeonato. Muitos leram-no como uma porta que se fecha. É verdade o contrário: é o sinal mais claro dos últimos anos de que o valor comercial da MotoGP está a subir — e muda o modo como uma marca se deve sentar à mesa, não a possibilidade de o fazer.
A minha leitura, depois de trinta anos passados a negociar patrocínios no motorsport, é que este anúncio deve ser bem compreendido antes de ser comentado. Porque a exclusividade diz respeito a uma parte precisa do mercado — o programa comercial do campeonato — e deixa intacta a outra, aquela onde se assina a maior parte dos contratos: as equipas. Confundir as duas coisas é o erro que já vejo circular nas conversas com as marcas.
Há uma imagem que uso frequentemente com os clientes e que aqui assenta na perfeição: quando compram uma casa, o construtor tem o seu gabinete de vendas. É competente, conhece o imóvel melhor do que ninguém e trabalha — legitimamente — para o vendedor. Nenhum comprador experiente entra nesse gabinete sem o seu próprio consultor. O mercado dos patrocínios de MotoGP, desde junho de 2026, funciona exatamente assim.
O que prevê o acordo entre a MotoGP e a CAA Sports
O acordo, anunciado oficialmente a 23 de junho de 2026, nomeia a CAA Sports — a divisão desportiva da Creative Artists Agency — agência exclusiva global do MotoGP Group para o desenvolvimento do seu programa comercial. O mandato, segundo o comunicado oficial, abrange quatro áreas: identificar e assegurar novas parcerias de valor para o campeonato, expandir-se para novas categorias de produto, aumentar a visibilidade global da marca MotoGP e construir pacotes integrados de direitos de patrocínio.
Carmelo Ezpeleta, CEO do MotoGP Group, definiu-o como “a key step in delivering our commercial strategy – building on the strength of what we have already created”. Paul Danforth, President da CAA Sports, falou da MotoGP como de “a premium global sports platform with a loyal and highly engaged fanbase” — uma base de adeptos que o MotoGP Group declara superior aos 650 milhões de pessoas em todo o mundo.
Traduzido em linguagem comercial: quem quer tornar-se parceiro oficial do campeonato — trackside, naming dos Grandes Prémios, categorias oficiais — passa a partir de agora por um canal estruturado e controlado por uma das maiores agências de representação do mundo.
A exclusividade da CAA abrange também os patrocínios das equipas de MotoGP?
Não. O mandato da CAA Sports diz respeito ao programa comercial do MotoGP Group, ou seja, às parcerias do campeonato. Os patrocínios das equipas — Ducati, Aprilia, Yamaha, Honda, e as equipas independentes como Gresini, LCR, Trackhouse ou Pramac — continuam a ser negociados diretamente pelas equipas e pelos seus consultores, como sempre foi. No comunicado oficial de 23 de junho de 2026, não por acaso, as equipas não são mencionadas.
É uma distinção tudo menos académica, porque os dois mercados têm lógicas, preços e interlocutores diferentes. O patrocínio de uma equipa de MotoGP opera num intervalo estimado — com base nos contratos que vemos passar — entre os 150.000 dólares e os 5 milhões de dólares por época, consoante os espaços, a equipa e os direitos incluídos, com projetos de title que sobem para além disso. As parcerias oficiais do campeonato movem-se em ordens de grandeza e estruturas contratuais diferentes. Uma marca com objetivos de marketing regionais, de B2B ou de ativação no produto encontra quase sempre na equipa a porta mais eficiente. Quem procura plataformas globais plurianuais raciocina ao nível do campeonato.
Porque é que a MotoGP escolheu precisamente a CAA Sports
A escolha segue uma lógica industrial precisa. A Liberty Media completou a aquisição do controlo da MotoGP em julho de 2025, uma operação que — segundo o que foi comunicado pela própria Liberty — valorizava o campeonato em cerca de 4,2 mil milhões de euros de enterprise value. Quem compra um ativo por esse valor tem um mandato implícito: fazer crescer as suas receitas comerciais. A CAA Sports já trabalha com a Formula 1 no brand consulting e trouxe ao motorsport de quatro rodas vários patrocinadores de primeiro plano. A Liberty está a aplicar à MotoGP um modelo que conhece.
Para o mercado é uma notícia positiva, e digo-o sem reservas: quando o rights holder investe assim na sua própria comercialização, o valor de todo o ecossistema — campeonato, equipas, pilotos — tende a subir. Quem assinou antes desta fase comprou aos preços do estaleiro; quem assinar nos próximos anos pagará, progressivamente, os preços do edifício acabado.
O que significa para uma marca que quer entrar na MotoGP agora
Significa que existem duas portas, e que devem ser escolhidas por objetivo, não por inércia. A primeira porta é o campeonato: parcerias oficiais, geridas pelo MotoGP Group com a CAA Sports como agência exclusiva. A segunda porta são as equipas: contratos negociados diretamente com as equipas, fora do perímetro da exclusividade.
E aqui volta o gabinete de vendas do construtor. A CAA Sports representa o vendedor — é o seu mandato, e é justo que o exerça da melhor forma. Mas o vendedor tem os seus objetivos: colocar o seu próprio inventário. Os objetivos do comprador são outros: pagar o preço justo pelos espaços certos face ao seu próprio plano de marketing, que por vezes coincidem com o inventário do campeonato e muitas outras vezes não. In my experience, a pergunta de que se deve partir nunca é “o que está à venda?”, mas “o que precisa o meu negócio?” — e a resposta, em mais de metade dos casos que acompanhei, levou a uma equipa, a uma combinação de equipa e hospitality, ou a uma série diferente da imaginada no início.
Os erros a evitar nesta fase
Quatro erros clássicos, na minha opinião, que esta transição tornará mais frequentes.
Primeiro — ler “exclusiva” como “porta única”. A exclusividade abrange o campeonato, não o paddock. Quem renuncia a explorar a MotoGP porque “agora há uma agência exclusiva” auto-exclui-se de um mercado que, para as equipas, continua aberto e direto.
Segundo — confundir os dois níveis de produto. As parcerias de campeonato e o patrocínio de equipa respondem a objetivos diferentes. Comprar visibilidade global quando era precisa ativação comercial em três mercados é o erro mais caro do setor, e nenhuma das duas portas vos protege sozinha.
Terceiro — esperar “que o mercado estabilize”. Os ciclos de reavaliação de preços premeiam quem entra cedo. Já aconteceu na Formula 1 depois de 2017 com a chegada da Liberty Media: quem assinou nos primeiros anos fixou condições que hoje já não existem.
Quarto — sentar-se à mesa sem uma avaliação independente. Qualquer que seja a porta que escolham, do outro lado está um profissional que negoceia patrocínios todos os dias. Chegar lá com um benchmark de preços reais, uma medição esperada do retorno e uma estratégia de ativação já escrita não é um luxo: é a diferença entre comprar um projeto e comprar um autocolante vazio numa moto.
Como se avança, na prática
O método que aplicamos na RTR Sports Marketing há trinta anos não muda com este anúncio; quanto muito, torna-se mais necessário. Primeiro: parte-se dos objetivos de negócio da marca — mercados, target, KPI — não do inventário disponível. Segundo: mapeiam-se ambas as portas, campeonato e equipas, com os números verdadeiros de audiência, media value e custos comparados. Terceiro: negoceia-se do lado do comprador, com a vantagem de conhecer preços e estruturas de dezenas de contratos reais. Quarto: constrói-se a ativação, porque — escrevi-o muitas vezes — a integração precede o logótipo.
Trabalhamos no motorsport desde 1995, do lado das marcas. Com o campeonato, com as equipas e agora com a CAA Sports as relações são e continuarão a ser profissionais e colaborativas: o nosso ofício não é competir com o vendedor, é representar quem compra.
O campeonato acaba de escolher o seu agente, e é um ótimo agente. A pergunta que importa é outra: quem vos representa a vós. Sempre.
O MotoGP Group nomeou a CAA Sports, divisão da Creative Artists Agency, sua agência exclusiva global para os patrocínios do campeonato: novas parcerias, novas categorias de produto e pacotes integrados de direitos comerciais a nível mundial.
Não. A exclusividade diz respeito ao programa comercial do campeonato (MotoGP Group). Os patrocínios das equipas — factory como a Ducati ou a Aprilia e equipas independentes como a Gresini ou a LCR — continuam a ser negociados diretamente com as equipas e os seus consultores.
Num intervalo estimado entre 150.000 e 5 milhões de dólares por época, em função da equipa, dos espaços na moto, dos direitos de hospitality e dos conteúdos incluídos. Os projetos de title sponsorship ultrapassam este limiar. As parcerias oficiais de campeonato seguem tabelas diferentes.
Sim. A relação direta entre a marca (ou a sua agência) e a equipa não é afetada pelo acordo com a CAA Sports: a negociação, os direitos e o contrato continuam entre as partes, como antes de 23 de junho de 2026.
É a divisão desportiva da Creative Artists Agency, uma das maiores agências de representação do mundo, ativa na consultoria comercial para rights holders: trabalha, entre outros, com a Formula 1 e representa mais de 2.000 dos melhores atletas do mundo.
Depende do objetivo. Plataforma global, plurianual, brand awareness em larga escala: campeonato. Ativação em mercados específicos, B2B, hospitality, flexibilidade de orçamento: equipa. A avaliação deve fazer-se sobre os números — audiência, media value, custo por contacto — antes de escolher a porta.