Em pouco mais de dez anos, as criptomoedas passaram da pintura de um carro da NASCAR paga com uma recolha de fundos online para contratos de centenas de milhões com a Fórmula 1, a NBA e a Liga dos Campeões. Depois veio o colapso da FTX, e muitos desses logótipos desapareceram em poucos meses. Em 2026, os patrocínios cripto no desporto continuam a existir, mas são outra coisa: menos numerosos, mais regulados e muito mais seletivos. Eis como tudo aconteceu, e o que ensina a quem trabalha com patrocínios.
Atualizado em setembro de 2026.
Em resumo: depois das primeiras experiências de 2014, as empresas cripto invadiram o desporto entre 2021 e 2022, chegando a mais de 600 milhões de dólares por ano em novos acordos. A falência da FTX, a 11 de novembro de 2022, fez cair muitos contratos e mudou o setor. Hoje restam sobretudo as marcas que investiram para construir reputação, como a Crypto.com, parceira da Fórmula 1 até 2030, a Kraken com a Williams e a Coinbase com a Aston Martin, num mercado que, segundo a SportQuake, valia 565 milhões de dólares na época 2024/25, abaixo do pico mas de novo a crescer.
As origens: uma recolha de fundos online e um bowl universitário
O primeiro patrocínio cripto a fazer notícia no desporto americano remonta a maio de 2014, quando a comunidade Dogecoin angariou cerca de 55 000 dólares para levar o seu cão Shiba Inu no Ford n.º 98 de Josh Wise, em Talladega, na NASCAR. Wise terminou em vigésimo, mas a imagem correu o mundo. Poucos meses depois, a BitPay assinou com a ESPN Events um acordo de três anos para dar o seu nome ao Bitcoin St. Petersburg Bowl, um jogo de futebol americano universitário disputado pela primeira vez a 26 de dezembro de 2014.
No futebol, o primeiro grande clube a assinar com uma criptomoeda foi o Arsenal, com a CashBet Coin, em janeiro de 2018. Ano e meio depois, a 28 de novembro de 2019, a Juventus lançou com a Socios o primeiro fan token, $JUV, abrindo uma tendência que iria envolver dezenas de clubes.
O boom de 2021 e 2022
O verdadeiro salto chegou com a pandemia e com a subida dos preços das criptomoedas. Segundo a GlobalData, o valor anual dos patrocínios cripto no desporto passou de 16,9 milhões de dólares em 2020 para 607,3 milhões em 2021, com um aumento de 488% no número de acordos. Na NBA, segundo a IEG, as marcas cripto gastaram mais de 130 milhões na época 2021/22, contra menos de 2 milhões na época anterior.
Alguns dos acordos desses anos:
- FTX e Miami: em março de 2021, a plataforma comprou por 135 milhões de dólares, durante 19 anos, o nome do pavilhão dos Miami Heat, uma estreia para uma empresa cripto num grande recinto americano;
- Crypto.com e a Fórmula 1: em junho de 2021 tornou-se a primeira parceira global cripto do campeonato, com um acordo de cinco anos de mais de 100 milhões de dólares;
- Crypto.com e a UFC: dez anos por 175 milhões de dólares, segundo a imprensa;
- Crypto.com Arena: desde 25 de dezembro de 2021, o Staples Center de Los Angeles tem o nome da Crypto.com, com um contrato de 700 milhões de dólares a 20 anos;
- FTX e Mercedes: parceria iniciada em setembro de 2021;
- Tezos: parceira blockchain da Red Bull Racing desde 2021 e patrocinadora das camisolas de treino do Manchester United, por mais de 20 milhões de libras por ano;
- Bybit e Red Bull: 150 milhões de dólares em três anos, assinados em fevereiro de 2022, o maior acordo cripto anual alguma vez visto no desporto até então;
- OKX e McLaren: primary partner a partir do Grande Prémio de Miami de 2022;
- Binance e Cristiano Ronaldo: uma parceria plurianual para coleções de NFT, com o primeiro lançamento em novembro de 2022.
Para muitas equipas era dinheiro fácil e imediato. Para muitos observadores, incluindo nós, era sobretudo o sinal de uma bolha: empresas muito jovens, desmaterializadas, com orçamentos enormes e capazes de mudar de estratégia de um dia para o outro.
O colapso: a FTX e o efeito dominó
As primeiras fissuras surgiram antes da FTX. A 1 de setembro de 2022, a Crypto.com retirou-se de um acordo de cinco anos e 495 milhões de dólares com a Liga dos Campeões, por problemas de licença no Reino Unido, em França e em Itália. Depois, a 11 de novembro de 2022, a FTX pediu a proteção do Chapter 11 nos Estados Unidos, declarando passivos entre 10 e 50 mil milhões de dólares.
As consequências para o desporto foram imediatas:
- a Mercedes suspendeu a parceria com a FTX no próprio dia e retirou os logótipos dos carros para o Grande Prémio do Brasil;
- em Miami, um tribunal federal de falências anulou o contrato do nome do pavilhão, que, depois de uma fase como Miami-Dade Arena, passou a chamar-se Kaseya Center;
- em dezembro de 2022, a Tezos deixou a Red Bull, explicando que o acordo já não estava em linha com a sua estratégia;
- a 12 de janeiro de 2023, a Ferrari pôs fim antecipadamente ao acordo com a Velas, anunciado pouco mais de um ano antes;
- em novembro de 2023, Cristiano Ronaldo foi alvo de uma ação coletiva de mil milhões de dólares na Florida pela promoção dos NFT da Binance.
Também escrevemos sobre isso no balanço do nosso artigo sobre o marketing desportivo em 2022, onde a preocupação de que houvesse muita parra e pouca uva se revelou fundada.
De 2023 até hoje: quem ficou e quem chegou
O setor não desapareceu, transformou-se. Algumas marcas mantiveram ou reforçaram a sua presença, outras chegaram depois do colapso com contratos mais prudentes:
- Crypto.com voltou à Liga dos Campeões em agosto de 2024 como primeira parceira cripto exclusiva da competição e, em dezembro de 2024, renovou com a Fórmula 1 até 2030, incluindo o patrocínio principal do Grande Prémio de Miami;
- Kraken é a parceira cripto da Williams desde 2023 e, em janeiro de 2026, renovou a longo prazo, com o logótipo na asa dianteira do FW48;
- Coinbase é parceira da Aston Martin desde fevereiro de 2025, com um contrato pago integralmente em USDC, a primeira vez que uma equipa de Fórmula 1 anuncia um pagamento em stablecoin;
- Red Bull despediu-se da Bybit no final de 2024 e, desde fevereiro de 2025, a sua plataforma parceira é a Gate.io;
- OKX continua com a McLaren, com um contrato que termina no final de 2026 e uma pintura especial para Monza e Madrid, e desde 2023 está na manga do Manchester City, por mais de 70 milhões de dólares em três anos;
- no MotoGP, a Bitget foi parceira regional de quatro Grandes Prémios em 2025: Itália, Alemanha, Catalunha e Indonésia;
- no futebol inglês, pelo contrário, a Tezos deixou o Manchester United em junho de 2025, embora na época 2025/26 treze dos vinte clubes da Premier League ainda tenham um parceiro cripto.
Os números descrevem um mercado mais pequeno mas vivo. Segundo a SportQuake, o investimento cripto em patrocínios desportivos foi de 565 milhões de dólares na época 2024/25, mais 20% do que no ano anterior mas abaixo do pico de 685 milhões de 2022/23. A Fórmula 1 tornou-se a principal plataforma, com 174 milhões, e a Crypto.com o maior investidor, com 213 milhões.
As regras mudaram
A maior diferença face a 2021 é a regulamentação. Na União Europeia, o regulamento MiCA entrou em vigor a 29 de junho de 2023: as regras sobre stablecoins aplicam-se desde 30 de junho de 2024 e o resto desde 30 de dezembro de 2024, com um período transitório para os prestadores de serviços que termina, o mais tardar, a 1 de julho de 2026. No Reino Unido, desde 8 de outubro de 2023 as promoções de criptomoedas têm de cumprir as regras da FCA, também para as empresas estrangeiras, e a 3 de junho de 2026 a FCA avisou os clubes de futebol para não se prestarem a patrocínios com empresas financeiras não autorizadas. Já em 2021 a autoridade britânica da publicidade, a ASA, tinha considerado contrária ao código uma publicidade aos fan tokens do Arsenal, por banalizar o investimento em criptomoedas e tirar partido da inexperiência dos consumidores. Nos Estados Unidos, por fim, a 18 de julho de 2025 foi assinado o GENIUS Act, a primeira lei federal sobre stablecoins.
O mercado também se manteve volátil: a bitcoin ultrapassou pela primeira vez os 100 000 dólares em dezembro de 2024, atingiu o máximo histórico de mais de 126 000 dólares a 6 de outubro de 2025 e estava perto dos 86 000 dólares a 22 de setembro de 2026.
O que ensina a quem trabalha com patrocínios
A história dos patrocínios cripto é um caso de estudo útil muito para além do setor. Algumas lições práticas:
- A due diligence sobre o patrocinador conta tanto como a que se faz sobre a propriedade. Uma marca que cresce depressa demais, num setor pouco regulado, traz consigo um risco reputacional para a equipa e para os outros parceiros.
- O contrato tem de prever o imprevisto. Calendários de pagamento antecipados, cláusulas de rescisão e garantias fizeram a diferença entre quem perdeu dinheiro e quem não perdeu. Falamos disso também no nosso artigo sobre as cláusulas para proteger os investimentos no desporto.
- As regras mudam de mercado para mercado. Um patrocínio global tem de ter em conta o que se pode comunicar na Europa, no Reino Unido ou nos Estados Unidos, sobretudo no caso de produtos financeiros.
- Sobrevive quem constrói uma marca, não quem aproveita uma bolha. Os nomes que ficaram são os que usaram o desporto para se darem a conhecer e ganharem confiança, com contratos longos e ativações coerentes, e não para uma operação de visibilidade imediata.
Há também uma questão ética que as propriedades não podem ignorar: uma revisão de 30 estudos publicada na Frontiers in Psychiatry em 2026 concluiu que os fan tokens se comportam como instrumentos especulativos, com uma forte sobreposição entre o trading de criptomoedas e o jogo problemático. Para uma equipa ou um campeonato, escolher um patrocinador significa também escolher o que propor aos seus adeptos.
Se está a avaliar um patrocínio, como patrocinador ou como propriedade, podemos ajudá-lo a construí-lo sobre bases sólidas: vamos conversar.
Fontes: The Drive, a Dogecoin na NASCAR; CNN, a recolha de fundos da Dogecoin para Josh Wise; Socios, cinco anos de fan tokens; Coin World, o Bitcoin St. Petersburg Bowl; PR Newswire, o Arsenal e a CashBet Coin; Verdict e GlobalData, o investimento cripto no desporto; SportsPro, os patrocínios cripto na NBA; CoinDesk, a FTX e o pavilhão de Miami; Decrypt, a Crypto.com e a Fórmula 1; Yahoo Sports, a Crypto.com e a UFC; NBA, a Crypto.com Arena; SportsPro, a Tezos e a Red Bull; McLaren, a OKX como primary partner; CoinDesk, a Bybit e a Red Bull; CoinDesk, a Crypto.com e a Liga dos Campeões; CoinDesk, a falência da FTX; RaceFans, a Mercedes suspende a FTX; CBS News, da FTX Arena ao Kaseya Center; ESPN, a Ferrari termina com a Velas; Crypto.com, o regresso à Liga dos Campeões; Crypto.com, a renovação com a Fórmula 1 até 2030; Williams, a renovação com a Kraken; Aston Martin, a parceria com a Coinbase; BlackBook Motorsport, a Gate.io e a Red Bull; Marketing Brew, a OKX e a McLaren; McLaren, a pintura OKX de 2026; Decrypt, a OKX e o Manchester City; MotoGP, a Bitget como parceira regional; The Sponsor, a Tezos e o Manchester United; Protos, os patrocinadores cripto da Premier League; SportsPro e SportQuake, o investimento cripto em 2024/25; AMF, o regulamento MiCA; FCA, as regras sobre promoções cripto; FCA, o aviso aos clubes de futebol; ASA, a decisão sobre o Arsenal; CoinDesk, o GENIUS Act; NBC News, a bitcoin acima dos 100 000 dólares; Fortune, o preço da bitcoin em setembro de 2026; NBC News, a ação contra Ronaldo; Frontiers in Psychiatry, fan tokens e jogo problemático.
Perguntas frequentes sobre patrocínios cripto no desporto
Quando nasceram os patrocínios cripto no desporto?
Os primeiros remontam a 2014: em maio, a comunidade Dogecoin financiou a pintura do Ford de Josh Wise na NASCAR e, em dezembro, disputou-se o primeiro Bitcoin St. Petersburg Bowl, patrocinado pela BitPay. No futebol, o Arsenal assinou com a CashBet Coin em 2018.
Quanto gastaram as empresas cripto no desporto?
Segundo a GlobalData, o valor anual dos novos acordos passou de 16,9 milhões de dólares em 2020 para 607,3 milhões em 2021. Segundo a SportQuake, o investimento foi de 565 milhões na época 2024/25, abaixo do pico de 685 milhões de 2022/23.
O que aconteceu depois da falência da FTX?
A FTX pediu o Chapter 11 a 11 de novembro de 2022. A Mercedes suspendeu a parceria no próprio dia, o contrato do pavilhão de Miami foi anulado, a Tezos deixou a Red Bull e a Ferrari pôs fim antecipadamente ao acordo com a Velas em janeiro de 2023.
Ainda há patrocinadores cripto na Fórmula 1?
Sim. A Crypto.com é parceira global da Fórmula 1 até 2030, a Kraken patrocina a Williams, a Coinbase a Aston Martin, a Gate.io a Red Bull e a OKX a McLaren, com um contrato que termina no final de 2026.
O que deve avaliar uma empresa antes de um patrocínio com uma marca cripto?
A solidez e as licenças do patrocinador em cada mercado, as regras sobre a promoção de produtos financeiros na Europa, no Reino Unido e nos Estados Unidos, os calendários de pagamento e as cláusulas de rescisão, e o risco reputacional para a propriedade e para os seus adeptos.